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O Grande Prémio de Abu Dhabi vai marcar a 305º e provavelmente última corrida de Fórmula 1 de Jenson Button, que se prepara para entregar o habitáculo do McLaren a Stoffel Vandoorne para 2017 e iniciar um novo capítulo na sua vida. O britânico continuará a ser um membro importante da equipa, mas também se mostra entusiasmado com a perspetiva de novos desafios fora da Fórmula 1…

P: Jenson, a tua carreira na Fórmula 1 vai chegar ao fim após a corrida de Abu Dhabi – pelo menos é esse o ponto de situação neste momento. Quando refletes nos teus muitos anos na Fórmula 1, o que vem à mente? Algo engraçado, algo triste…

Jenson Button: Bem, ainda é cedo demais para eu refletir. De certa forma ainda não parece verdade, porque só acaba quando acabar!

P: Então e sobre os bons e maus momentos

JB: Claro que toda a carreira tem altos e baixos. Sempre prefiri ter muitos altos e baixos ao invés de uma carreira estagnada – e eu tenho isso! (risos) Tive definitivamente altos e baixos. E lembro-me muito bem dos altos – e como qualquer ser humano tento esquecer os baixos. Lembro-me definitivamente de cruzar a linha de meta no Brasil e ser campeão do mundo. Também me lembro da primeira vez em que estive ao volante de um carro de Fórmula 1 – é algo que nunca se esquece porque é muito especial. Foi em 1999 com a McLaren. Em Silverstone. Foi o “prémio” pela vitória no campeonato britânico de Fórmula Ford. Não tive permissão para fazer muitas voltas, mas pensei “isto é divertido” e “isto é para mim”. O meu primeiro verdadeiro teste foi com Prost. Foi em Barcelona e quando terminou fiquei com um largo sorriso no rosto. Tantos momentos felizes – mas vou mantê-los todos no meu livro!

cvdapqpxeaaww05P: Conseguiste permanecer na Fórmula 1 por um incrivelmente longo período de tempo. Isso não é uma coisa simples de alcançar. Existe algum segredo para isso?

JB: Nenhum segredo. O meu palpite é que fiquei tanto tempo – e queria ficar – porque está sempre a mudar. Trata-se de ser capaz e estar disposto a aprender algo novo. Isso é uma grande diferença para a maioria dos outros desportos, onde é tudo sempre igual. A Fórmula 1 está sempre a mudar. O desempenho do pacote que tens está sempre a mudar – assim como a concorrência. Foi isso que me manteve entusiasmado e que me fez voltar ano após ano.

P: Na verdade, foram mais de 16 anos – e sempre como um piloto pago e não pagante. Isso nos dias de hoje é a coisa mais difícil de atingir…

JB: Sim, nunca paguei para guiar. E isso é muito difícil para os pilotos britânicos, porque há muito pouco apoio ao automobilismo. O governo não nos financia e não há muitos patrocinadores ao redor. Os pilotos sul-americanos recebem muito mais apoio de governos ou de grandes patrocinadores.

P: Como alguém que nunca beneficiou realmente do poder do patrocinador para abrir portas para ti, pode provavelmente dizer-se que as tuas habilidades foram o teu melhor apoio. Quais são os três aspetos essenciais no ADN de um piloto para sobreviver aqui?

JB: Estar disposto a aprender – isso também significa ter um ambiente que te mantém entusiasmado, porque te aborreces muito rapidamente. Claro que é preciso sorte – e ser capaz de a construir: as habilidades de corrida, a capacidade técnica e ser capaz de trabalhar com patrocinadores e parceiros da maneira correta. E, claro, tens de ser rápido. Sem isso nada mais ajuda a longo prazo.

P: O quão político tens de ser?

JB: Eu diria que os pilotos de Fórmula 1 não são animais políticos. Sim, não somos tão abertos quanto a imprensa quer quer sejamos, mas isso não tem nada a ver com política…

P: Mas vemos que alguns pilotos usam a imprensa de forma intensa para seu próprio benefício…

JB: Não sei a quem te referes. Por exemplo, o Lewis (Hamilton) tem muitos seguidores nas redes sociais – claro que tem: ele foi três vezes campeão mundial. Se ele não fosse tricampeão mundial não teria esse número de seguidores. Se estás numa posição como a do Lewis e se postares uma imagem claro que não vais passar despercebido. E na realidade é preciso dizer que ele faz isso tudo para os fãs.

P: P: Vais continuar na McLaren com um papel consultivo, por isso vais ficar perto do desporto. Como um dos pilotos com mais experiência no paddock, a tua voz vai, provavelmente, ser ouvida. O que queres mudar na Fórmula 1?

JB: Não vou mudar nada a menos que esteja a correr – e não vou estar! Relativamente à McLaren, o meu trabalho não será desenvolver o carro porque não o vou guiar. Vou ouvir o feedback dos pilotos e tentar ajudar a equipa a perceber o que eles querem dizer, porque isso às vezes não é fácil no calor do momento. O meu objetivo – ou o meu trabalho – será ajudar a construir e polir a equipa. Se olhas para uma equipa por tanto tempo de um ponto de vista e depois tens a oportunidade de dar um passo a trás e observar de um outro ponto de vista, estou certo de que há muito para aprender.

P: Nenhum piloto chega à Fórmula 1 sem a ajuda de outras pessoas. Quem te ajudou a construir o teu caminho?

JB: Obviamente o meu pai teve um papel importante na minha carreira. Ele foi a razão pela qual comecei a correr. Ele correu em rallycross e eu adorava vê-lo. Adorei o cheio de borracha – e o barulho. Tinha apenas cinco ou seis anos. Quando tinha sete ele comprou-me um kart. Então, definitivamente, posso dizer que ele me inspirou. Quando corria sempre adorei a atenção que tens no pódio – e adorava ganhar e ver que o meu troféu era maior que o deles! Ganhar obviamente ajudou a impulsionar a minha carreira – para ser capaz de passar para carros melhores e categorias superiores até chegar à Fórmula 1.

P: A Fórmula 1 é uma competição de alto nível e isso às vezes dificulta a vida privada…

JB: Bem, esse é o preço que tens de pagar quando fazes o melhor trabalho do mundo: guiar um carro de Fórmula 1! Sim, às vezes é um pouco irritante, porque és, afinal, um desportista e não um cantor ou um ator que vive através da publicidade. Mas nenhum trabalho é perfeito. (risos) A partir do próximo ano, estou certo de que vou viver uma vida muito mais simples.

P: Há algum objetivo que ainda tenhas? Podes já ser um pouco velho para a Fórmula 1, mas para outras carreiras, aos 36 ainda és um homem na flor da idade…

JB: Estou mais em forma do que nunca. Pretendo ser campeão do mundo de triatlo na minha faixa etária como amador – não como profissional. E adoraria correr em Le Mans. Rallycross também está na minha lista de coisas a fazer. Há tantas coisas que quero fazer.

P: Rumores dizem que tens sido muito cuidadoso com o dinheiro que ganhaste na F1…

JB: … mas perdi muito – na verdade não perdi: Gastei muito dinheiro. Isso vem com o facto de viajares por todo o mundo. Então tens de aproveitar. Espero que se tiver filhos um dia tenha algo para eles. Talvez um dia pergunte a mim mesmo: “Como é que eu acabei assim, onde é que eu ganhei isso?” (risos) Mas estou certo de que correrá tudo bem. Ninguém se deveria preocupar comigo.

P: Temos que nos preocupar contigo depois da corrida de Abu Dhabi?

JB: O fim de semana de Abu Dhabi será definitivamente emocional. Os últimos anos foram bastante difíceis sem o meu pai. Portanto sim, a minha última corrida será difícil – mas a minha mãe estará lá, assim como uma das minhas irmãs e muitos dos meus amigos. Por isso, será um fim de semana muito especial. Não será o fim – será um novo começo.

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